Filme: Aftersun (2022)
- Henrique Dumay

- há 26 minutos
- 2 min de leitura

(contém Spoiler) Aftersun é um daqueles filmes que nos mantêm olhando para a tela após os créditos, em silêncio. A poesia dolorosa de Charlotte Wells nos atravessa e mostra recortes da memória de Sophie (Frankie Corio), em busca de se reconciliar com a imagem do pai que amava, porém o homem que nunca chegou a conhecer inteiramente. Neste papel, Calum (Paul Mescal) mostra toda sua vulnerabilidade e expõe o custo de viver. Recortes de lindas paisagens dos mares da Turquia e do ritmo intermitente de luzes estroboscópicas nos revelam fragmentos de um filme de viagem feita por Sophie com 11 anos de idade e seu pai, talvez o vídeo da última viagem que tenham feito juntos. Talvez a última vez que Sophie tenha estado com ele... Calum nos apresenta um pai que tenta proporcionar uma ótima viagem a sua filha, enquanto carrega o peso de um mundo que já não consegue mais sustentar. Sob a observação de serem aqueles os últimos dias de viagem, ele cuida de Sophie, inventa brincadeiras, organiza passeios, sorri para a câmera, pratica tai-chi; mas, quando a lente se desvia de seu papel, percebemos seu colapso. O esforço para sustentar seu manto de pai-herói não resiste ao vazio existencial que nele se habita. O cenário é bonito, o mar tem cor, mas sua expressão se esvazia. Para aqueles contaminados pela dor da existência, o sol não aquece. Entre cenas com cores vívidas e escuros propositais, o filme nos mostra seu desamparo e sua luta para resistir àquelas férias ao lado de sua filha. Seu evidente fracasso financeiro junta-se à percepção de que ele deixa de ser o centro do universo para Sophie e leva-no ao precipício. Enquanto tenta proporcionar boas experiências para ela, se vê paralisado pelo próprio medo, escancarado ao não acompanhá-la quando ela os inscreve para cantar a música deles no Karaokê. Ele a abandona naquele palco, sozinha, diante de uma plateia que a acolheu, mas foi ele que lhe apontou o dedo ao final. A partir daquele momento, temos a certeza de que o mundo se tornou demasiado pesado para ele. É no dia seguinte que ele pede desculpas a sua filha e ensaia sua despedida.
O título do filme parece uma metáfora dolorosa. O pós-sol é aquilo que aplicamos quando a queimadura já aconteceu. Sophie revisita os vídeos de férias como quem aplica esse creme na própria memória, buscando alguma explicação. Calum amava Sophie, com cada pedaço de seu ser ferido e a doença não apagou a luz que ele tentou, desesperadamente, projetar sobre ela. Sua despedida de Sophie no aeroporto machuca e comove. Enquanto para ela talvez tenham sido as melhores férias de sua vida, sua partida esvazia a vida de seu pai de qualquer sentido.
O filme nos convida a sermos mais gentis uns com os outros e compreender que a depressão e amor podem habitar o mesmo espaço. Nem toda queimadura é visível.



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